Fazer aniversário não deveria significar, automaticamente, perder força, equilíbrio ou vontade de se movimentar. É uma ideia repetida por cada vez mais especialistas em longevidade: não se deve aceitar a deterioração física sem questionar, já que existem métodos para desacelerar e até mesmo melhorar o nosso condicionamento físico.
E isso é algo que quem já passou dos 50, está começando a gravar a ferro e fogo, incorporando à rotina hábitos saudáveis como caminhar diariamente em ritmo acelerado ou subir e descer escadas em vez de pegar o elevador a todo momento.
A cirurgiã ortopédica Vonda Wright, uma das vozes de referência nos Estados Unidos quando se fala em envelhecimento ativo, defende há anos que boa parte do que atribuímos à passagem do tempo tem mais a ver com a falta de movimento do que com os anos em si.
Ela voltou a explicar isso durante sua participação no podcast Feel Better, Live More, do médico britânico Rangan Chatterjee, em uma conversa que também compartilhou em seu perfil no Instagram.
Chatterjee abriu o debate com um dado que costuma surpreender quem se deixa levar por clichês: quem mantém o movimento como prioridade pode chegar aos 70 anos com uma estrutura muscular semelhante à que tinha aos 40. Wright não apenas confirmou, mas foi além ao apontar onde está realmente o problema.
A perda de massa muscular, afirmou ela, não é uma imposição biológica inevitável; é consequência de anos de sedentarismo e de hábitos que deixam de ser mantidos.
Nesse sentido, Chatterjee insistiu que as consequências de não se movimentar vão muito além dos músculos. "As pessoas pensam que isso afeta apenas os músculos. Não, isso afeta todos os sistemas do corpo; inclusive, como você bem sabe, a mente", alertou.
E foi aí que Wright apresentou o dado que mais deveria nos fazer refletir: segundo seus números, mais de 70% da população mundial não dedica um único dia para cuidar ativamente de sua mobilidade ou de sua saúde.
Para Wright, essa porcentagem explica grande parte da diferença entre chegar à velhice com ou sem autonomia. "Quando você investe na sua saúde e mobilidade todos os dias, você vai envelhecer de forma diferente", resumiu na conversa.
A especialista não falava de passar horas na academia ou fazer esforços sobre-humanos, mas de algo mais simples: o corpo responde àquilo que é exigido dele, inclusive após os 60 anos.
Nesse sentido, nem Wright nem Chatterjee encaram isso como uma corrida contra o tempo. Durante a conversa, surgiram exemplos de pessoas que começaram a treinar depois dos 60 anos e acabaram, duas décadas depois, batendo recordes em sua faixa etária.
Wright resumiu tudo com uma frase que é uma injeção de esperança para quem deseja melhorar os próprios hábitos: "a capacidade de transformação do corpo é surpreendente".
Não se trata de negar que o corpo muda com a idade — o que seria absurdo, já que todos sentimos isso na própria pele. Trata-se de outra coisa: de entender que boa parte dessa mudança depende de decisões que são tomadas, ou deixadas de lado, todos os dias.
Força, equilíbrio, mobilidade… nenhum desses três pilares depende unicamente da genética, e essa é, talvez, a mensagem mais marcante de toda a conversa entre os dois médicos.